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Wednesday, May 8, 2013

Os documentos do carro...

Fomos mandados parar pelo polícia de trânsito no fim da avenida quando esta acaba na Julius Nyerere. Eu tinha parado no sinal luminoso à espera que virasse verde e ligado o pisca para virar à esquerda.

Era de noite, umas 9 da noite, e acabei por parar o carro num espaço pouco iluminado, o que não me agradou nada. O senhor não tinha o pisca ligado, disse-me o polícia. Retorqui que tinha o pisca ligado, sim.  Não contestou.

Os documentos, pediu o guarda. Ao entregar-lhe a carta de condução percebi que tinha deixado os documentos do carro em casa. O carro era do meu cunhado, com matrícula da cidade do Cabo. Disse-lhe que não os tinha. Então isso dá multa, disse o guarda. Num rasgo de chico-espertisse disse-lhe que não porque eu tinha 24 horas para apresentar os documentos na esquadra. Não sei se é verdade mas pegou.

Onde é que leu isso? perguntou o guarda. Mas antes que eu pudesse responder, ele acrescentou - e há quanto tempo estou eu aqui? Respondi que não sabia. A conversa tinha começado a parecer conversa de surdos. O polícia fez cara de estar enfadado com a conversa. Nesse momento, com ar de desprezo, virou-me a cara, devolveu-me a carta de condução e mandou-me seguir. Respirei fundo e fui-me embora. Com o pisca ligado de novo, por mor das dúvidas.

Aprendi mais tarde que esta conversa é típica de quem quer patrocínio, que é a nova palavra para saguate, corrupção, por outras palavras.

Há bem pouco tempo os polícias pediam refresco, mas houve espertos que andavam com uma lata de refrigerante no carro e o nome dessa coisa passou de refresco para patrocínio. Realmente é uma palavra muito mais pomposa.  

Aviso aos navegantes I


Quando a estrada aberta deixa de ter quatro pistas e passa para apenas uma pista em cada direção por causa das obras frequentes e sem fim, há placas de sinalização a indicar a redução da velocidade máxima. Rapidamente se passa de 120km/h para 100km/h, depois para 80, acabando nos 60 km/h. Tudo isto acontece no curto espaço de estrada que é marginalmente suficiente para cumprir a lei pelo uso consciente e incisivo dos travões do carro. Será para isto que inventaram os travões de disco? 
Ao longo da zona em obras há grupos de homens vestidos de macacões cor de laranja, ou envergando coletes de um amarelo luminescente. Na grande maioria dos casos esses homens encontram-se sentados na berma da estrada, sem ocupação visível, como que à espera de alguém que lhes venha indicar a tarefa seguinte. Não vi ferramentas nas proximidades desses homens.
Alguns, poucos, trabalhavam acocorados no pavimento da pista em obras, sob o calor inclemente do sol de África, com pequenas ferramentas de tipo ligeiro, quase caseiro, como que a esfregar cada pedrinha com uma escova dos dentes.
A pouca distância da última placa de limite de velocidade há quase sempre um grupo de homens ocupados junto aos pilões de plástico que separam a pista de circulação da pista em obras.
Esse grupo, indistinguível dos outros grupos, é da polícia de estrada e está munido de aparelhos de deteção da velocidade dos carros que passam. Não está na realidade a tentar controlar e impor a velocidade máxima. Para isso estariam bem visíveis. Estão na caça à multa. Oficialmente.
Fomos parados por um desses grupos da polícia. Disse-nos o agente da polícia que se dirigiu ao nosso carro que íamos a 87km/h numa zona de velocidade máxima de 60km/h. Não tive argumento, apenas que pensava estar a cumprir a lei e que ia num grupo de outros carros e todos íamos à mesma velocidade.
O agente informou-nos que teria de nos passar uma multa de SAR 750. Ao que eu respondi que me passasse então a multa. Mas o homem continuou a dizer que para me passar a multa com recibo teria de o fazer na esquadra que se situava lá por trás de umas colinas para onde ele apontou, a uns 50 km de distância, e que teria de esperar a escolta do carro da polícia. E que não tinha previsão para quando o tal carro iria passar por ali de novo.
Nessa altura sugeriu que me poderia deixar seguir se eu pagasse ali mas sem recibo. Acabámos por fechar negócio aos SAR 400. E seguimos viagem indignados.
Um amigo nosso confirmou mais tarde que tínhamos atuado bem e que se fossemos mandados parar de novo deveríamos repetir o processo. Esse amigo também nos disse que quando o polícia mete a mão dentro da janela do carro é sinal que está a pedir resgate, comissão, chamem o que quiserem, essa posição de mãos indica que estão abertos à corrupção.

Aviso aos navegantes II


Quando se chega à fronteira os serviços são de um primitivismo e uma ineficiência impensável no século XXI.
À entrada da zona do posto de fronteira um funcionário entrega-nos um papel de uns 10cm por 20cm onde ele acabou de escrever o número de matrícula do carro e o número de passageiros sem nos dizer para que serve. Estacionámos o carro onde havia lugar. Neste posto de fronteira pode-se deixar o carro sem receio de assaltos.
Prossegue-se para uma fila única que no nosso caso já se estendia pelo passeio ao sol. Depois de esperarmos em fila algum tempo entrámos no edifício. À porta há um painel descrevendo a sequência – “customs first”, alfândega primeiro e depois controle de passaportes. No guiché de alfândega uma funcionária conta folhinhas enquanto vai carimbando outras como a nossa quase sem olhar para a folhinha ou para o portador.
Do lado das partidas há muitos passageiros e poucos funcionários. Do lado das chegadas acontece exatamente o contrário.
O balcão das partidas, situado por trás de vidros e armações de ferro pintado, dá de costas para o balcão que serve as chegadas. Os funcionários ocupam o espaço entre os dois balcões. Nas nossa fila, a das partidas, há uma progressão lentamente dolorosa. Há vários guichés sem funcionários. Os passaportes são inseridos em leitores eletrónicos com uma regularidade lenta, carimbados e rubricados.
Por algum motivo que não compreendemos há mais funcionários nos guichés das chegadas e muito menos viajantes do que no nosso lado, o das partidas. É possível que as entradas neste país mereçam mais atenção e mais cabeças a pensar porque de vez em quando alguns funcionários do nosso lado, das partidas, viram-se para conferenciar com os colegas do lado das chegadas sobre algum caso mais bicudo.
A ineficiência, apesar do sistema digitalizado de leitura de passaportes, é palpável. O papelinho que a funcionária de alfândega carimbou é agora carimbado mais uma vez. Os nossos passaportes são-nos devolvidos e estamos prontos para sair a caminho da outra fronteira, a de entrada no país de destino. O papelucho é por fim entregue a um funcionário do posto de fronteira e achamo-nos em terra de ninguém.
Aqui não há confusões de revistas a carros, não há despachantes a oferecer serviços mais acelerados, não há trocas escuras de divisas, não há corrupção aparente nem parece haver oportunidades para que esta se estabeleça.
A bomba de gasolina que nos disseram haver aqui já não existe. O calor era muito mas não demasiado. O sol africano parecia estar a poupar-nos.

Aviso aos navegantes III


Quando se chega à fronteira de entrada neste país que é o nosso destino e onde se fala a nossa língua há um funcionário dos serviços de fronteira que escreve a matrícula do carro e o número de passageiros noutro papelinho, semelhante ao do outro lado, que nos entrega sem dizer para que serve. A uns metros desse funcionário há um grupo de homens, sem farda, mas com uma plaqueta de identificação pendurada ao pescoço. Mandam parar o carro e pedem pelo papelinho que o funcionário nos acabou de dar, e indica-nos para seguir um deles. Não é possível ler o que está escrito nas plaquetas de identificação pois que todas estão viradas com o lado em branco para fora. Notei e não gostei da coincidência.
Quando perguntamos quem são então nos dizem que são agentes independentes, despachantes, que furam a fila e passam com os nossos passaportes pelo processamento em que naquele momento entrava uma fila de dezenas de outros cidadãos que escolheram não usar os serviços de um destes despachantes. Tudo isto em troca de uns Meticais.
Antes de sair da zona de fronteira e seguir viagem é necessário comprar seguro contra terceiros para o país de destino. Há várias empresas com quiosques dentro da zona de fronteira. Concessões concedidas a alguns sob um processo de contratação que me é desconhecido. 
Foi num destes quiosques que comprámos o nosso seguro contra terceiros e onde por fim aceitámos os serviços de um dos despachantes que também era empregado da agência de seguros. Não por confiarmos no sistema mas porque a fila era realmente longa, estávamos cansados da viagem e porque confiámos no facto que o despachante indicado tinha o aval do agente da empresa seguradora cujo nome nos era familiar.
Em troca de 100 Meticais esse agente passou pelo controle de passaportes, preencheu um formulário de entrada do carro que já estava pré-carimbado e assinado pela alfândega, e atraiu um agente alfandegário para a vistoria do carro e a assinatura final no papelucho que nos iria permitir sair da zona de fronteira e seguir o nosso caminho.
É preciso levantar dinheiro no Multibanco para pagar em Meticais as portagens.

Aviso aos navegantes IV


Quando toda a papelada estava pronta, no nosso caso preenchida por um despachante que também era funcionário da companhia de seguros com quem contratámos o seguro contra terceiros, apareceu de novo o despachante com um fiscal da alfândega para verificar o carro e qualquer conteúdo que pudesse estar sujeito a impostos alfandegários.
Os fiscais neste posto de fronteira verificam praticamente todos os carros. Mas a postura do fiscal, durante a fiscalização permite que se coloque no bolso do funcionário uma taxa informal que acelera a verificação e evita um escrutínio eficaz da bagagem dos viajantes.
Eu não sabia dessa cerimónia, dessa dança. E fiquei ali a tentar convencer que as caixas de cartão que levávamos no porta-malas continham canetas, cadernos escolares, livros e algumas roupas que tinham sido doadas e destinavam-se a um orfanato que apoiamos. O sorriso do fiscal, perante a minha explicação, deu-me a entender que não tinha acreditado na minha explicação. Mas o fiscal também não quis ver o conteúdo das caixas e verificar se o que eu tinha dito era verdade. Perguntava-me só qual era o valor do que eu levava.
Mencionou que havia ali assunto para deter tudo na alfândega. Que eu tinha dito que era tudo sem valor mas que afinal não era, portanto eu tinha feito uma falsa declaração. A certo ponto desta conversa, a minha companheira de viagem, que tinha ficado no carro para que não fosse assaltado, tremia e transpirava de medo. Eu não tremia mas transpirava e pela mesma razão.
O fiscal acabou por me perguntar porque é que eu não lhe dava €100. Voltámos de novo às avaliações arbitrárias do valor da mercadoria. Finalmente pediu €50. Senti que tínhamos chegado ao último preço. Dali iríamos ao escritório alfandegário e isso seria bem pior. Dei-lhe os €50 e saí dali angustiado, revoltado, com medo e com náuseas.

Eu vi um país…


Eu vi um país pobre, prostituído, corrupto, de sorrisos esmorecidos. Nesse país eu costumava ver sorrisos. As gentes tinham um ar delicioso de olhares ternos e alegres. Mas eu vi um país triste. Um país disfuncional. Um país onde eu não percebi a que ponto acabava o vale-tudo propulsionado pelo drama diário da sobrevivência de uma vida em pobreza abjeta e onde começava o crime da corrupção descarada.
Tive medo nesse país logo à entrada. E ainda sinto medo dele. Pela estrada em direção ao nosso destino eu vi machambas plantadas no meio do nada onde crescia milho que parecia saudável e bem desenvolvido logo ao lado da cabana retangular de caniço cheia de frestas por onde podia entrar tudo. O pó, o calor, o frio, o vento, os olhares indiscretos, além dos muitos mosquitos que por todo o lado sugam a vida a muitos infortunados deixando para trás os mais pequenos e os mais velhos ainda mais desafortunados para serem sugados mais tarde.
Tive pena dos habitantes dessas inúmeras palhotas de caniço junto à estrada. Não consegui imaginar os habitantes das outras palhotas que não consegui ver, encobertas pelas palhotas mais próximas, onde o sufoco da vida deve atingir um nível que, para mim, é absolutamente incompreensível.
Tive medo dos bandos de rapazes e homens que tentam angariar um pequeno negócio de serviços duvidosos a turistas incautos ou visitantes inexperientes no funcionamento destes pequenos esquemas e expedientes. Tive pena das mulheres que pediam boleia à beira da estrada para irem não sei onde ou regressarem a casa não sei de onde. Não imagino o que as levaria para tão longe das suas habitações. Mas a vida deve ser muito penosa e perigosa para essas mulheres.
Senti muito receio pela vida das carradas de gente humilde empilhadas em camionetes de caixa aberta em que viajavam sentadas nos varais e apoiadas apenas umas às outras como gado miúdo que eu vi, quando era criança, transportado pelas estradas rurais.
Senti horror pela imundície das poças de água à beira da estrada. Imundas, escuras, cheias de plástico despedaçado, de restos de lixo irreconhecível que tornava em fétidas essas águas que há pouco tempo foram límpidas gotas de água das chuvas. Poças de água que faziam de parque de diversão para a criançada. Fez-me tristeza pensar que seriam essas poças o local de diversão para as matilhas felizes de garotos incautos. E temi pela sua saúde e pelas suas vidas.
Ao longo da estrada ou na cidade não vi diferenças exceto na altura e estrutura das habitações e na presença dos ghettos protegidos por guardas e por fiadas de arame farpado eletrificado onde vivem em segurança e luxo os mais afortunados. O lixo, a imundície, a pobreza, a fragilidade da vida era igual. Pensar em como esta gente é sugada da sua alegria de viver, da sua dignidade é-me muito penoso.
Tive medo do que vi nesse país. As grandes desigualdades sociais e económicas acabam sempre por gerar ressentimento e violência.