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Wednesday, May 8, 2013

Eu vi um país em desenvolvimento


Eu conheci esse país noutros tempos. Nessa altura as avenidas eram largas, rasgadas de lés a lés. Essas avenidas em linha reta eram apreciadas por todos quantos as percorriam. Quer por quem lá vivia mesmo na azáfama do dia a dia, quer por quem visitava.
Hoje essas avenidas ainda lá estão e ainda suscitam orgulho aos que lá viveram e saudade dos tempos da nossa juventude quando por lá andámos a pé ou de bicicleta, sob o mesmo sol inclementemente tropical.
Os edifícios eram o orgulho embora muitos não fossem adequados ao clima. Eram de uma construção que tentava imitar os edifícios da Europa distante. Só os edifícios do tempo anterior ao ar condicionado apresentavam características mais propícias ao clima quente e húmido dos trópicos.
Hoje esses edifícios sem condições tropicais ainda lá estão, delapidados, sem pintura, com grades até ao último andar, sujos, sem elevador, onde frequentemente falta a água e a eletricidade. É assim cá, dizem os locais. Welcome to Africa, dizem os mais cultos.
Os edifícios novos continuam a ser apenas imitações pouco apropriadas ao clima. Com telhados sem respiração e beirais sem ventilação. Alguns, imitando a arquitetura angular moderna ostentam coberturas planas com varandas que não dão vista para nada. Toda a falta de adaptação ao clima tropical é suprida por aparelhos de ar condicionado.
Os edifícios de residências pomposas mostram a baixa qualidade dos construtores locais. Há buracos nas paredes. Restos inacabados de pontos de luz que não foram instalados. Muros que nunca foram terminados por cima embora já pintados. Os degraus desiguais são acidentes à espera de acontecer. Portas de madeira maciça empenada, mal acabada e mal aparelhadas. A imperfeição é generalizada e de mau artesanato.
Estas casas são as que encontramos nos ghettos de ricos. Todas protegidas por guardas, arame farpado e vedações eletrificadas.  Por trás dos muros trabalham uns poucos cidadãos locais privilegiados que servem os patrões que hoje pertencem a uma elite com mentalidades do pior que a raça lusa jamais produziu.
No tempo em que eu lá vivi havia uma camada social de colonos que tendo atingido neste território um nível de vida muito superior aos que tinham tido na sua terra natal adquiriram os hábitos boçais do novo rico. Tratavam a população local com desdém e muitos até com soberba insultuosa.
Hoje a maior parte dessa gente já lá não está, mas os que lá estão mantiveram o mesmo desdém e a mesma soberba para com os mais fragilizados que exploram sem remorso. Welcome to Africa, dizem eles.
Tive pena dessa gente e receio pelo seu futuro. É triste e por vezes revoltante essa África que eu vi.

Eu vi um país…


Eu vi um país pobre, prostituído, corrupto, de sorrisos esmorecidos. Nesse país eu costumava ver sorrisos. As gentes tinham um ar delicioso de olhares ternos e alegres. Mas eu vi um país triste. Um país disfuncional. Um país onde eu não percebi a que ponto acabava o vale-tudo propulsionado pelo drama diário da sobrevivência de uma vida em pobreza abjeta e onde começava o crime da corrupção descarada.
Tive medo nesse país logo à entrada. E ainda sinto medo dele. Pela estrada em direção ao nosso destino eu vi machambas plantadas no meio do nada onde crescia milho que parecia saudável e bem desenvolvido logo ao lado da cabana retangular de caniço cheia de frestas por onde podia entrar tudo. O pó, o calor, o frio, o vento, os olhares indiscretos, além dos muitos mosquitos que por todo o lado sugam a vida a muitos infortunados deixando para trás os mais pequenos e os mais velhos ainda mais desafortunados para serem sugados mais tarde.
Tive pena dos habitantes dessas inúmeras palhotas de caniço junto à estrada. Não consegui imaginar os habitantes das outras palhotas que não consegui ver, encobertas pelas palhotas mais próximas, onde o sufoco da vida deve atingir um nível que, para mim, é absolutamente incompreensível.
Tive medo dos bandos de rapazes e homens que tentam angariar um pequeno negócio de serviços duvidosos a turistas incautos ou visitantes inexperientes no funcionamento destes pequenos esquemas e expedientes. Tive pena das mulheres que pediam boleia à beira da estrada para irem não sei onde ou regressarem a casa não sei de onde. Não imagino o que as levaria para tão longe das suas habitações. Mas a vida deve ser muito penosa e perigosa para essas mulheres.
Senti muito receio pela vida das carradas de gente humilde empilhadas em camionetes de caixa aberta em que viajavam sentadas nos varais e apoiadas apenas umas às outras como gado miúdo que eu vi, quando era criança, transportado pelas estradas rurais.
Senti horror pela imundície das poças de água à beira da estrada. Imundas, escuras, cheias de plástico despedaçado, de restos de lixo irreconhecível que tornava em fétidas essas águas que há pouco tempo foram límpidas gotas de água das chuvas. Poças de água que faziam de parque de diversão para a criançada. Fez-me tristeza pensar que seriam essas poças o local de diversão para as matilhas felizes de garotos incautos. E temi pela sua saúde e pelas suas vidas.
Ao longo da estrada ou na cidade não vi diferenças exceto na altura e estrutura das habitações e na presença dos ghettos protegidos por guardas e por fiadas de arame farpado eletrificado onde vivem em segurança e luxo os mais afortunados. O lixo, a imundície, a pobreza, a fragilidade da vida era igual. Pensar em como esta gente é sugada da sua alegria de viver, da sua dignidade é-me muito penoso.
Tive medo do que vi nesse país. As grandes desigualdades sociais e económicas acabam sempre por gerar ressentimento e violência.