Thursday, July 5, 2012

Oldupai Gorge

Chega-se a Oldupai por uma picada poeirenta de areia e pedra por onde circulam soltos os burros dos Maasai, a que os locais chamam Maasai 4x4. De repente há um pequeno edifício e a planície desaparece à nossa frente.
 
O vazio do espaço no Oldupai Gorge, ou Olduvai Gorge, a Garganta de Oldupai é, só por si, impressionante. Não há máquina fotográfica que chegue para tanta paisagem. O vale, a garganta, estende-se da esquerda para a direita... o silêncio só é cortado pelo chilrear da passarada miúda. Fica-se sem fôlego, e não é do calor.
 
  
  
 
Foi aqui que em 1974 encontraram a famosa ossada a que foi dado o nome de Lucy. É a este vale que chamam o Berço da Humanidade.
 
Do alpendre que serve de posto de observação podemos ver o que foi naquele tempo da Lucy um vale ou apenas uma planície. Esse vale, essa planície, foi depois coberta de cinza e pedra lançada pelo vulcão que deu origem à atual cratera de Ngorongoro. Outros dois vulcões ajudaram à festa. O vale aí desapareceu e passou a ser apenas parte da planície circundante.
  
Com os tempos formou-se um rio que começou a arrastar essa cinza e pedra de modo a formar o vale que de novo podemos ver. E foi essa sequência de cinza e rio que preservou e depois destapou a ossada da Lucy para que nós hoje possamos ficar deslumbrados com coisas que nos apontam para o de onde nós viemos.
  
 
Teve o destino a consideração de deixar para trás uma formação de pedra e cinza no meio da Garganta. Nesse monumento geológico podem observar-se as 4 ou 5 camadas de pedra e cinza deixadas pela atividade dos 3 vulcões ao longo das eternidades. Essa curiosidade permitiu a reconstrução dos acontecimentos geológicos. Os carreiros que se observam nas vertentes são formados pelos rebanhos dos Maasai que são permitidos pastorear ali.
 

O guia local que nos coube, um homem de meia idade, um homem que exalava calma e segurança, um homem que transpirava conhecimentos, apontou para a baixada no canto superior direito da foto acima como o local onde a ossada foi econtrada. Disse-nos, com toda a naturalidade, num Inglês impecável - foi daqui que a humanidade saiu. E agora vocês regressaram ao local de onde todo nós partimos. Foi a sensação com que de lá saímos naquele dia.
 
Soubemos depois que este homem é um dos pesquisadores no local. Professor de Antropologia na Universidade de Dar Es Salaam.
 
Este homem acolheu-nos e deixou-nos partir com uma mensagem muito linda - Karibu sana! Sejam benvindos!

Serengeti II

A sensação de que estávamos a viver um filme foi nítida. Tínhamos dormido no meio da selva, num hotel onde as gentes nos deram um tratamento de 7 (sete) estrelas, rodeados de um silêncio palpável, numa noite estrelada como há muito tempo não víamos, e tínhamos acordado com o cantar da passarada. Estava a custar a creditar no que estávamos a viver. De vez em quando beliscávamo-nos para ter a certeza que não era sonho.
 
Mas ainda estávamos cansados das viagens de avião. Tínhamos saído de Johannesburgo a caminho de Addis Ababa onde tínhamos apanhado outro vôo de Addis Ababa para Arusha onde tinhamos chegado às tantas da madrugada. Por isso convencemos o Silayo que hoje só saíamos para ver bichos às 9:00 da manhã. Foi a primeira e última vez que ele nos tolerou este luxo. Daí para a frente passámos a sair às 8:00 como todo o turista que se preza.
 
   
Tinha chovido de noite e embora não tivessemos dado por nada a estrada não mentia.
 
  
O tempo, ainda nublado, favoreceu-nos. O calor não apertava e a bicharada andava à solta a fazer o que a bicharada faz. Quer haja turistas com máquinas fotográficas quer não.
 
 
Alguns ainda olharam para nós...

  
Outros, nem por isso. Como estas hienas, ainda preocupadas em carregar para local seguro o que restava de uma caçada que muito provavelmente não foi delas.
 
  
À sombra de uma árvore, completamente imóvel, este leopardo poderia ter passado completamente desapercebido. Mas não ao olhar do nosso guia. Silayo descobria animais nas sombras mais distraídas e inofensivas.
 
  
Nem sempre os animais estavam perto da estrada. E a nossa máquina fotográfica portou-se muito bem. A bicharada com cara de poucos amigos ficou com as caras que tinham. Era o que queríamos.
 
  
Silayo tinha um colega, o Isaque, outro guia que andava por ali, com quem trocava informações, sobre o que viam e não viam. Em Inglês soa como Áisac. Pelo que depreendemos os dois entendiam-se em Swahili. Mas quando o Silayo chamava pelo rádio, não era à primeira que o Áisac respondia. Mas o nosso Silayo não desistia - Áisac, Áisac, Áisac... até que finalmente vinha uma resposta.
 
Foi numa destas trocas de informação pelo rádio que, de repente, numa zona com limite de velocidade de 25 km/h, o Silayo deu a volta ao carro, e regressou ao local onde tinhamos visto o leopardo, a uns 50 km/h ou mais. Perguntámos - que se passa? Silayo respondeu - o leopardo atravessou a estrada.
 
  
Chegámos a tempo de ver o leopardo subir a outra árvore, realmente do outro lado da estrada...

  
E acomodar-se no seu novo posto de observação.
 
  
Não hove mãos a medir. O dedo indicador que acionava a máquina fotográfica não ganhou para o dia.
 
  
O dia estava fresco e a bicharada andava à solta...
 
  
Grande e pequenos...
 
  
Sonolentos...
 
  
E atentos...
 
  
Pequenos...


E grandes... 
 
  
E, parecendo que não, assim se gasta um dia inteiro em África... quando menos esperamos são horas de regressar. A sorte é que o filme destas máquinas modernas estava em saldo. Só não estavam em saldo as pilhas que custavam € 7 cada duas. Preço especial para turista.
 
  
Até no terreno do hotel havia bicharada... e à noite, para ir para o quarto era preciso chamar o guarda florestal para nos acompanhar. Porque o htel fica mesmo na reserva e os bichos não respeitam os limites traçados pelos seres humanos. É uma falta de respeito...

 

Serengeti I

Quando chegámos a Arusha, vindos de Addis Ababa, já passava das 2:00 da madrugada. Silayo e Peter, no 4x4 que seria a nossa segunda casa durante a semana seguinte, estavam à nossa espera para nos deixar no hotel. Mas às 9:00 dessa manhã já lá estava o nosso guia pronto e sorridente para nos levar para Manyara.

Depois de visitarmos o parque do Lago Manyara, que descrevi noutro post, seguimos para Serengeti. Não faziamos a mínima ideia do que nos esperava. 
 
  
Passa-se pela Reserva Natural de Ngorongoro, pela cratera, à qual só demos uma vista de olhos porque a visita seria mais para o fim da viagem, e seguimos para a planície. Planície a perder de vista. Ao longe, para sul, os contrafortes da cratera de Ngorongoro. Para norte, mais planície.
 

Era Abril e as manadas estavam em plena migração. Gnus e moscas era mato. Mas também se viam muitas gazelas. De onde a onde viamos bandos de abutres a tratar dos restos de alguma caçada.
 
   
A meio desta vasta planície o ser humano traçou uma linha imaginária que divide esta zona em duas reservas. A sul da linha a reserva de Ngorongoro e a norte a de Serengeti. Há nos que era tudo uma reserva só mas começou a ser complicado gerir esta área tão grande e foi então que decidiram dividir esta zona em duas reservas. Confesso que me pareceu uma decisão lógica. Realmente as duas áreas são distintas. Uma placa define a passagem de uma reserva para a outra.

Do lado de lá dessa linha imaginária continuava a grande manada de gnus a caminho de Maasai Mara no Kénia. Tinham começado as chuvas e esta bicharada ia em busca de capim novo e fresco. Não dá para contar quantos animais poderão estar no campo de visão a qualquer momento. 


De repente Silayo para o 4x4 e diz - ali no capim! Estão a ver? Capim? Qual capim? Onde? Ali! Apontava ele. Ah! Os olhos do turista finalmente pousaram naquela mancha mais amarelada do que o resto á volta e identificaram um rei da selva e uma rainha da selva. Sim, já agora, acho que podemos chamar a amiga dele de rainha.
 
Saímos da estrada principal, a que se vê na foto acima, e metemo-nos por umas picadas que nos levaram a um pequeno conjunto de árvores onde uma manada de elefantes calmamente se alimentava.


Nestas árvores havia outra surpresa:

 
Tiveram sorte, disse-nos Silayo. Naquela árvore ali, na árvore das salcichas, estão a ver? Carnívoros e herbívoros pareciam estar juntos a sobreviver naquela chuva, miudinha mas que não parecia parar.


O fim da tarde aproximava-se e nós estámos cansados. Era hora de ir para o hotel, tomar um duche reconfortante, comer uma sopinha e recolher.




Wednesday, July 4, 2012

Tanzania - Lago Manyara

Lake Manyara foi a primeira paragem para ver bichos. É um lago que recebe pouca água. Água das chuvas e alguma água quente de fissuras ao longo do promontório que delimita a norte o conhecido Rift Valley ou Vale do Rift. O mesmo vale que viu o nascer do ser humano nos seus primórdios biológicos.
 
 
Do bar do hotel temos uma boa vista do lago. Aqui tomámos o imperativo gin-tónico, medicamento eficaz contra a malária. Enquanto almoçávamos havia bicharada que se veio abastecer sem respeito nenhum pelos limites da propriedade. Acho que o problema é mais grave. Estabeleceram os limites da propriedade e não disseram nada à bicharada. E agora admiram-se.
 
  
À entrada do parque deu para perceber que não iamos ficar sem ver animais. Aqui a estrada é deles e as oportunidades fotográficas são mais que muitas. Os macacos até parecem esperar que o turista foque a máquina. Aqui tudo acontece devagar... como diz uma bloguista conhecida.
 
  
A planície a norte do lago é fertil. As águas das chuvas que alimentam o lago descem as encostas dos morros a norte e fertilizam este lado do lago. A vegetação é abundante. E os animais encontram aqui alimento e proteção entre as árvores.


A elegância do andar das girafas deu origem ao andar da mulher Africana. O ritmo lento, o gingar do corpo, o bambolear das ancas, tudo isso a girafa ensinou à mulher Africana. Silayo, o nosso guia, não sabia disso. Achou muita graça à nossa teoria.  Mas não é teoria, é verdade, dissemos-lhe. Riu-se ainda mais. Tá bom!

Aves abundam no Lago Manyara. Pelicanos aos bandos até perder de vista...


... assim como grous coroados e outros...


Foi realmente uma experiência que logo ao primeiro dia excedeu as nossas expectativas. A abundância de animais, os horizontes a perder de vista, o silêncio do mato, o equilíbrio entre as diversas forças da natureza são visíveis. Palpáveis até. 
E ainda não tinhamos visto nada... Silayo tinha razão.




Tanzania - em safari

Hoje estou com a guita toda. É de aproveitar... e salve-se quem puder.

Safari foi o que nós fomos fazer. As fotos vieram naturalmente. Safari em Swahili quer dizer uma viagem, um trajeto. Na Tanzania as pessoas fazem um safari de carro para ir ao mercado. Apanham um chapa para irem num safari à cidade. Apanham o autocarro e vão fazer um safari para visitar a família na cidade ou vila mais próxima, ou não tão próxima.

Decepcionou-me um pouco porque, afinal, um safari é a coisa mais natural do seu dia a dia para aquela gente. E nós, os ocidentais, a imaginar um safari como coisa para gente com pelos no peito. Desilusões da vida...
 
 
A caminho do nosso safari encontrámos este autocarro que ia no seu safari para Nairobi. Três dias de viagem. Por uma estrada que atravessa o parque de Ngorongoro e de Serengeti, atravessa a fronteira com o Kenia, passa por Maasai Mara, e ao fim de três dias deve chegar a Nairobi, se não houver azar. Até porque as estradas não são más. Excepto quando chove muito... São é a perder de vista, como toda a paisagem em África.
 

Mas como fomos em safari, eu até fui de safari suit, não fosse eu um turista convicto! Tinha bolsos para tudo! Até para não saber em que bolso tinha posto os lenços de papel... o que por vezes se torna num problema bicudo...

  
Aquilo não era a brincar, que julgam!

Mas houve, para mim, talvez não tanto para a Ana Paula, (até porque estas coisas de 4x4s e caça é coisa de rapazes...) uma sensação muito grande de ter regressado a África. À África profunda. À África de há 50 anos. Àquela África em que vivemos os nossos afortunados anos de juventude. A uma África, se me permitem, do Out of Africa. A sério! A uma África acolhedora. Imensa mas acolhedora na sua imensidão. Onde só de 4x4 se podia entrar.
 

Desta vez sem armas de caça, e ainda bem! Mas com todos os requintes desses tempos da caça grossa. Onde um búfalo solitário ou um kambako poderiam estar a espreitar por trás de alguma acácia também solitária.

Não sei bem explicar. Senti uma paz muito grande no meio daquela selva, daquela natureza feroz mas ao mesmo tempo acolhedora. E veio-me à mente a declaração já famosa e repetida ad nauseam de Rui Knopfli:

"Ter-se nascido ou vivido em Moçambique (em África, afinal...) é uma doença incurável, uma virose latente. Mesmo para os que se sentem genuinamente portugueses mascara-se a doença, ignora-se, ou recalca-se e acreditamo-nos curados e imunizados. A mínima exposição a determinadas circunstâncias desencadeia, porém, inevitáveis recorrências e acabamos por arder na altíssima febre de uma recidiva sem regresso nem apelo". 
Rui Knopfli.
  
Se um dia tiverem a oportunidade de visitar a Tanzania, o Serengeti, Ngorongoro, vão! Não hesitem! Não vão chorar por tê-lo feito. Juro! 


Tanzania - Arusha

This post has to be in English. For a very simple reason. I want my friends in Tanzania to be able to read it. 
 
We went to Tanzania on a safari to see animals. And names like Serengeti, Ngorongoro, and Manyara had been in our minds for quite some time. We wanted to see these places with our own very eyes. Without the National Geographic or Nature camera crew filters.
 
 
We saw animals. Plenty of them. But we also had the opportunity to interact with local people. People who came across as unassuming, friendly, helpful, content.
 
We did not see fear in these people. We did not see suspicion in the way they interacted with foreigners. We experienced a strong feeling of trust. In other African countries we could sense fear, suspicion, mistrust. It was in the air. It was in the eyes of the people even though they were friendly to us. But not in Tanzania.
 
Maybe Tanzania was a silent beneficiary of an independence without war. A country with an existence without civil strife. And if that is the case, then much can be said about the benefits of a peaceful independence process.
 
 
For our guide we had Silayo. Silayo was friendly, courteous, knowledgeable and a very good driver of that big green 4x4. Silayo, by the way, also has the cell phones of all the animals. He calls them and tells them to be there. And when he does not have cell phone coverage he uses his two-way radio to find out from his friends, other drivers in the vicinity. The result is a couple of thousand pictures with animals.
 
We loved to see all the animals and I will show more pictures soon. But we do miss Silayo. Our friendly Tanzanian man on the ground. Because of him we left with a very warm feeling for Tanzania.
 

Zanzibar

Zanzibar deve ser a ilha que o Camões decreve no famoso Canto IX d'Os Lusíadas, aquele Canto que nenhum professor se atrevia a estudar connosco. Feitios...
  
Esta ilha tem uma população predominantemente islâmica, estatística que os locais têm o orgulho de comunicar a todos os que chegam de visita. Na mesma frase, sem perderem a respiração, também nos informam que desde sempre todos viveram e vivem em paz e respeito mútuo. Confesso que foi o que vi e senti enquanto lá estivemos.
 
  
Em Zanzibar as mulheres dedicam-se muito à cultura de algas. Cultivam-nas nas praias do lado do Índico. Apenas dois tipos de alga servem. A cultura é feita amarrando algas a cordéis seguros a pequenos postes de madeira para resistirem à ação das ondas e das marés. Crescem durante umas semanas. Quando atingem o tamanho ideal são colhidas, secas e vendidas a intermediários que as vendem à indústria de cosméticos. A maior parte da colheita vem para a Europa.
 
A tarefa de manutenção das culturas de algas é feita enquanto a maré está baixa. Quando a maré começa a subir as mulheres regressam a casa para tratarem da colheita do dia e de todas as outras tarefas que ocupam a vida da mulher africana. Tarefas essas que são mais que muitas.
 
 
Têm um andar elegante mas determinado apesar de carregarem sacos de algas à cabeça. Andam com um passo mais curto e mais apressado do que vi em outras paragens de África. Quando andam, as capulanas, que em Swahili se chamam khangas (ou kangas) dançam à volta dos tornozelos fazendo ondas e pregas. A leveza destas danças dá-lhes um certo ar de sofisticação. Não sei como explicar. Só vendo, realmente.
 
Estas khangas (eu gosto do "h" na palavra, dá-lhes um certo ar estrangeiro) são de tecido mais leve do que vemos por exemplo no sul de Moçambique. Não é de admirar. Aqui estamos apenas a 5º do Equador. O Sol passa por aqui duas vezes por ano no seu percurso.
 
Os homens não gostam da cultura de algas. Precisam de esperar (umas semanas) até que cresçam. Preferem a pesca que tem uma recompensa mais imediata.