Saturday, December 26, 2009

Em forma de conchinha...


















Se algum dia amor, sentires
que a minha mão aperta,
ou que estou com ela
demasiado aberta,
lembra-me
que tem de ser
...
assim,
sempre assim,
...
toda curvadinha,
em forma de conchinha?

Friday, December 25, 2009

Ser português

Ser português é ser o que nos ensinaram a ser e que, se não nos acautelamos, ensinaremos os nossos filhos também a ser, ou seja, o mesmo.

Esse mesmo de que nos queixamos, o chico esperto, o político corrupto, seguido pelo industrial corrupto, financiado pelo banqueiro corrupto e seguido por cada um de nós que aceita, no mínimo, que o sistema seja corrompido ao menor vislumbre de benefício pessoal. Esse mesmo! O mesmo que tem levado este país às páginas dos jornais com escândalos dos quais apenas nos rimos ou nos queixamos, e contra os quais por vezes nos revoltamos mas sem efeitos correctivos aparentes. Esse mesmo é o mesmo que nos ensinaram, e o mesmo que, infelizmente, estamos a ensinar a ser aos nossos filhos.

De todos eles, penso que o chico esperto é o pior. É o pior porque abre a porta a todos os outros. O chico esperto de que nos queixamos é o que nós ensinamos aos nossos filhos e filhas quando lhes ensinamos a fazer batota num joguinho "sem importância" com os amigos, só para que o nosso filho ganhe sempre, ou pelo menos, mais vezes que os outros. E deste modo o nosso filho, ou filha, não precisa de ser bom no que faz. Basta ser esperto e aldrabar os outros, como espreitando as cartas do parceiro mais novo e inocente ou alterando as regras do jogo enquanto se joga um joguinho sem importância. Mas porquê? Porque ensinamos isso? A resposta é simples. Ensinamos isto porque nenhuma criança gosta de perder, nós não gostamos de ver os nossos perder, e em especial, não queremos ouvir a birra dos nossos filhos ou filhas quando perdem e não ganham. Todas as outras respostas ou justificações, que isto é um mundo cão, que só ganha quem é feroz, que as crianças têm de aprender a bater porque se não batem vão apanhar dos outros, são subterfúgios, nada mais.

Na realidade, perder precisa de ser ensinado e dá trabalho. Não precisamos de ensinar a ganhar. Isso já a natureza nos teceu, nas tramas mais recônditas da nossa massa cinzenta, durante milénios sem fim. Todos nós sobrevivemos porque ganhámos no jogo da vida. Somos descendentes de seres humanos, e, mais longe ainda, de animais que ganharam no jogo da vida. Perder precisa ser aprendido mas, e aí o dilema que temos de enfrentar, nem um pai gosta de ver o filho perder, nem se quer dar ao trabalho de ensinar o filho a perder, ou seja, a ser bom no que faz para ganhar. Isso dá trabalho. A ambos. Falo de pais e filhos no contexto genérico de pais, de filhos, de mães, de filhas, de avós, de netos, de netas e por aí adiante.

Ensinar a perder é ensinar regras da democracia que tanto gritamos aos sete ventos, e isso leva tempo e dá trabalho. Mas é essa democracia que nos permite viver em paz com os nossos vizinhos, que nos permite ter amigos a sério, não apenas os de conveniência, e até sermos felizes nos nosso relacionamentos.

No entanto, como portugueses, temos entranhado dentro de nós a ideia que ensinar um filho a perder é ensiná-lo a ser "mó de baixo," a ser "pateta", a ser o "bobo do grupo". Mas isso é um erro grave para a criança e para a sociedade. Para não ser nada disso é também preciso ensinar a criança a reconhecer quando as regras estão a ser violadas pelos outros e ensinar a levantar a voz e reclamar e, se preciso for, punir quem prevarica. Mas isso dá trabalho aos pais e à sociedade. Leva tempo. E precisa de convicção de que o chico espertismo que nos ensinaram não é, ao fim e ao cabo, bom para ninguém. Essa convicção viola os ensinamentos dos nossos pais e é difícil ir contra a maré. Mas se queremos, como pessoas, como cidadãos, como um povo, como um país, ser melhores, cada vez melhores, temos que vencer essas regras de sobrevivência que nos têm levado ao que somos, ou seja, a sermos, como um povo, menos do que poderíamos ser.

Thursday, December 17, 2009

Filhos e filhas

Pois é assim.

Queremo-los.

Concebemo-los

e assim os temos.


Os educamos

eles crescem

nos esfoçamos

e assim os vemos.


Queremos

que sejam

o que gostamos

na imagem que temos.


Mas eles crescem

agora são eles

não são nós

nem os avós deles.


Não são o que quizemos

não são o que fizemos

mas são eles

nós os fizemos.


Não são a nossa imagem

são a imagem deles

novos belos seres

nova linguagem.

Monday, November 2, 2009

Portugalidade

Caro Professor Magalhães,

Tenho lido artigos, livros e emails sobre a portugalidade, assunto de grande interesse para mim. Invariàvelmente apontam-se defeitos, ou feitios, e características que fazem de nós um povo marginal e marginalisado sem saída, sem solução. Alguns destes artigos têm sido instrutivos para mim, mas muitos são, infelizmente, e a meu ver, muito destrutivos e que em nada contribuem para a auto-estima de seja de quem for.

Contudo confesso que me custa muito admitir que, em grande parte, estes autores tenham razão. Sinto que se eu me posso distinguir dos demais, e isto sinto-o na pele sem vaidades nem arrogâncias, é porque no estrangeiro fui exposto a atitudes diferentes que aprendi, ou tive de aprender, a bem ou a mal, atitudes essas que passaram a fazer parte do que sou. E pergunto-me sobre o que fazer para melhorar este "nosso feitio" aparentemente tão pernicioso? O que fazer para expor os nossos compatriotas a oportunidades que ainda não tiveram neste campo?

Imagino que a implementação de qualquer que seja a solução não será fácil, mas penso que o problema está mais do que identificado. No entanto não tenho lido nada que possa sugerir sequer um caminho de saída. E então pergunto-me - será que há iniciativas educativas que possam alterar de modo positivo estas características tão nocivas ao nosso bem estar? Será que não seria possível introduzir aulas e sessões educativas? Umas para a população a nível escolar e outras para os adultos que já por lá passaram? Será que o benefício não ultrapassaria de longe os custos desse esforço? Devo dizer que sou um acérrimo defensor da educação como meio de desenvolvimento de qualquer povo.

Deixando então as perguntas em aberto, a semana que vem verá o início do novo ano académico da Universidade Sénior aqui na terra onde moro. Começarei com a primeira turma de Ecologia e Energias Renováveis. Quero ver se consigo introduzir um modo positivo de pensar e de encarar as coisas. Sei que quando começar a falar sobre o potencial que Portugal tem nestas áreas vou ter de me debater com um negativismo acerado. Vamos ver como me saio desta.


Saturday, October 31, 2009

I drank a toast to you

(dedicated to Cynthia)


Tonight, Cynthia,

I drank a toast to you.

It was the only way I knew

to honor you

from inside the pain

that your absence left behind.

There was no solace

in rationalizations.

Your time had come

and you had to go.

I know!


In my mourning

I sat at a table

of the little restaurant

right in my town

upon the water.

The night was balmy,

the air was still,

and there we sat,

just you and me,

like years ago

in Berkeley.


And there,

in my solitude,

I remembered you

and softly cried.

And I remembered you

in your house under the oaks.

I remembered you

as you sat with your children,

and your grandchildren

listened to the flies,

while I unplugged the sink.

And I laughed!


I remembered you

when I visited you

in your apartment

over the bay

in St. Thomas.

And we drank a toast

of my favorite gin

you had bought,

in your loving manner,

just for me.


I never knew your dark side,

the one that made you human

like the rest of us.

But you knew mine.

I knew your bright side

the one so dear to me,

that made you so special.

The side that never judged

and always accepted me

as I am.


I remembered

your email jokes,

the ones you sent

two and three times over,

maybe more,

and always made me laugh.

And I remembered you

in your suffering

and how much I worried about you.

And how much I did not want

the pain you felt

to punish you so much.


But now you are free.

Free from the pain

and the punishment

you never deserved.

So tonight,

embraced in these memories,

these fond memories of you,

tonight,

my dear friend,

I drank a toast,

to you!


Monday, October 31, 2005

8:00 PM, in the evening.

Saturday, October 24, 2009

Convívio ou saudade?

que importa,
quando pelo mundo,
levados pela vida,
tenhamos encontrado
alguma solidão
e dela queiramos
um pouco de alívio?

que importa,
se ao relembrarmos,
desejamos rever
as faces e os sorrisos
dos que connosco
sofreram as vésperas
dos cruéis exames finais?

que importa,
se ao fim do dia,
não nos queiramos despir
daquilo que nos fez,
da terra que nos viu crescer,
das belas memórias
que aqui revemos?

que importa,
se é convívio ou saudade.
que importam
os nomes que possam dar
àquilo que somos nós
e que aqui revemos
em convívio ou saudade?

Thursday, October 8, 2009

Sobre o que é este blog?

Uma pergunta muito válida tendo em conta que há tantos blogues por aí com conteúdos tão ricos e tão diversos. Mas eu vou tentar explicar o porquê desta minha aventura.

Há algum tempo atrás uma amiga, muito amiga e muito minha, sugeriu que eu criasse um blogue. Achava que eu devia publicar coisas que tenho escrito ao longo dos anos e que muitas vezes não têm sido publicadas nem partilhadas. Achei a ideia interessante, mas mesmo arriscando magoar a minha amiga, não segui a sugestão. Não segui porque não senti coragem de criar um blogue só para publicar coisas, ideias, poemas, sem ter uma ideia fundamental que guiasse o conteúdo deste blogue. E depois quando me faltassem as ideias? O que é que eu iria fazer? Agora não. Vou pensar no assunto. E fiquei a pensar no assunto.

E assim a ideia do blogue foi ficando na gaveta, como muitas ideias que temos, todos nós, e que receamos partilhar porque não temos coragem de nos expor ao mundo, porque não achamos as nossas ideias assim tão válidas para que os outros se possam interessar, porque achamos que as nossas ideias vão contra a corrente, vão contra o conceito que possam fazer de nós, vão contra o conceito a que sentimos que nos devemos cingir, para não sermos excluídos do grupo de que tanto desejamos fazer parte, sei lá, por mil e uma outras razões.

Mas esta ideia do "ser excluído" voltou à superfície há dias enquanto lia um livro de
Amin Maalouf, As Identidades Assassinas. Para quem o não leu, vale a pena. E desse livro surgiu-me a ideia fulcral para este blogue: um blogue onde amigos e amigas, pessoas queridas, curiosos e curiosas, interessados e interessadas, possam partilhar as suas múltiplas experiências, as múltiplas facetas das suas identidades, aquelas que por vezes até, durante muito tempo escondemos porque a sociedade em que vivemos, o mundo em que vivemos, quer globalizar tudo e portanto quer que nos sintamos "no fundo, no fundo" aquilo que é considerado "normal" no núcleo de amigos e amigas, na família, na vila, no bairro, no país em que vivemos, na empresa onde trabalhamos, na escola que frequentamos.

E o nome? Bom, o nome... é porque "no fundo, no fundo" não somos uma coisa apenas. No fundo, no fundo, não somos aquilo que é esperado de nós. Somos muito mais. Somos uma mistura muito complexa de contributos vindos das mais variadas direcções, das mais variadas fontes. No fundo, no fundo somos todos mestiços. Somos mestiços em um ou mais aspectos. Pelo sangue que nos corre nas veias, há mais ou menos gerações misturado por algum motivo que se calhar (ah! essa expressão tão portuguesa!) se calhar nem conhecemos, ou pelas línguas que falamos que nos levaram a misturar termos desconhecidos dos nossos pais e dos nossos queridos professores que tanto se esforçaram para que falássemos um português correcto, ou pelas culturas em que nos inserimos tendo sido receptores de particularidades culturais que de nós fizeram alguém diferente dos nossos amigos que não tiveram essas oportunidades. E tudo isso faz agora parte de nós. E tudo isso faz com que não consigamos, no fundo, no fundo, ver o fundo do que somos.

Mas todas essas características misturadas em cada um de nós, essas mestiçagens, que tanto valor adicionaram ao que nós somos, quando defendidas fora do seu todo também podem contribuir para nos empobrecer perante os olhos de outros, criando um pernicioso "nós" e "eles" que tanto tem contribuído para cisões, para desavenças, para um mundo menos acolhedor. A tese não é minha, mas identifico-me com ela como se fosse.

E então achei que valeria a pena criar mais um blogue. Um blogue onde pessoas com as vivências mais variadas possam expor a riqueza do que são, não apesar dessas vivências, mas por causa dessas vivências. Um blogue onde a palavra chave possa ser enriquecimento de todos nós através de todos nós. E que, quem sabe, a chama pegue e se comecem a valorizar pessoas com muitas ou poucas mestiçagens em vez de os marginalizar.

Eis o tema. Aventureiro? Acho que é. Demasiado ambicioso? Talvez. Mas decidi atirar-me a ele agarrando-me, com unhas e dentes, às palavras de Pedro Barroso
na sua composição Agora não é tarde.

E não é tarde para tentarmos melhorar o mundo em que vivemos, nem que seja com uma minúscula contribuição para que as diversidades, as mestiçagens que existem dentro de cada um de nós passem a ser valorizadas. Para que as nossas mestiçagens não sejam motivo de desavença mas sim motivo de acolhimento e de melhoramento dos pequenos mundos onde cada um de nós faz pela vida.