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Wednesday, August 8, 2012

O país do "não" nas Olimpíadas de Londres

Tenho acompanhado com muita ansiedade misturada de alegria e por vezes um pouco de tristeza o desempenho dos nossos atletas.
 
Tenho-me deliciado a ver pela televisão equipas e indivíduos com a nossa bandeira bordada no peito e o sangue luso no coração a dar tudo por tudo para conseguirem ficar bem colocados. Muitas vezes a vencer obstáculos com os quais nós nem sonhamos.
 
Tenho-os visto a bater atletas de países que consideramos "fortes" o que me tem dado muito orgulho, ansiedade e alegrias indescritíveis.
 
Mas também tenho observado e notado o modo como os nossos comentadores conseguem sempre encontrar uma maneira de expressar os deliciosos resultados obtidos em termos que considero negativos, derrotistas até.
 
Tenho ouvido comentários como - ah, aquele atleta por tantos décimos de segundo que não conseguia... a nossa equipa nem sequer chegou a... por pouco que aquela vitória não era desse ou daquela atleta. Se não fosse a adversária ter perdido o ritmo...
 
Aí as minhas emoções passam-se da ansiedade para a angústia e para a ira, para uma quase raiva que não sei explicar. Será que não há palavras diferentes para descrever o que os nossos atletas conseguiram? Para ilustrar o que quero dizer, deixem-me transcrever o parágrafo anterior de um modo mais positivo. 
  
Por exemplo - ah, aquele atleta conseguiu, por meros décimos de segundo, arrancar a vitória das garras do adversário... a nossa equipa conseguiu fazer aquilo que equipas consideradas mais fortes e com mais experiência não conseguiram... aquela vitória foi sensacional! Uma luta renhida até ao fim! A nossa atleta não perdeu o ritmo...
  
Só no país do não, que já descrevi aqui neste blogue, é que eu observei tal negatividade. Tenho muito receio que nos estejamos a deixar influenciar pelo país do não. Sei que não é longe, esse país, mas acho que temos garra para não nos deixarmos influenciar pelo que lá se faz. 
 
Será que os comentadores da televisão têm andado a visitar esse país do não tão frequentemente que já se deixaram cair nessas práticas tão derrotistas? Se isso é verdade, então é altura de se lhes retirar o microfone, e, já agora, o cartão do sindicato. 

Não merecem, nem um, nem o outro.

Saturday, July 7, 2012

Os requintes do "não" daquele país

No país do não, a que fiz referência num post anterior, desenvolveram-se, ao longo dos tempos, várias versões do não. É natural. Os esquimós têm umas 50 palavras para neve. Os povos das ilhas do Pacífico têm mais outras tantas palavras para vento. Pois este país do não também tem várias versões do não. Eu explico.
 
Há, por exemplo, o não sincopado, curto, imperativo, sem recurso, sem apelo nem agravo. Este não soa mais como um não em que o o quase desaparece. A ênfase está no ã. É dito com voz mais grossa e num tom de voz determinado - o! Assim, curto, como um café do mesmo nome. Que faz logo a tensão subir. É o não do não me chateies!
 
Há o não tolerante, displicente, de certo modo rebaixante, quase que um tás parvo ou quê. É dito esticado. Tão esticado quanto a nossa tolerância permitir. Este não soa mais como um nãããã..., ou um náááá.... É o não que se usa antes de um tás a sonhar com ladrões. É o não que premite indicar ao interlocutor que acabou de dizer a maior asneira do mundo sem ter que o dizer cara a cara. Percebi que dá muito jeito este não.

Não se deve confundir este não com o não mimado, um tanto agastado, mas amigável. Este não também é alongado, mas é dito com uma voz torneada de mimo, uma voz num tom mais agudo do que a voz natural. Mais ou menos um nãããuuuumm... É pronunciado com ênfase nas duas sílabas do não. É o não da jovem de olhos arregalados a quem o namorado insiste em fazer umas carícias um tanto íntimas em público, de que ela gostaria, mas que acha que não devem fazer isso ali no banco do jardim. O fator importante aqui é o tom de voz mimado. Aquele tom de aceitação inundado de uma recusa que pode quebrar a qualquer momento. O tom de voz e as nuances na entoação distinguem este não de todos os outros.
  
Há depois o não indiferente, descontraído, distraído, despreocupado, cool. Este não também tem de ser dito num tom de voz mais agudo. Mas mais do que o não anterior. Pelo menos uma oitava acima do nosso normal. Quase esganiçado. O não que quer dizer não sei porque é que estás preocupado com isso! É o não que precede um não estou nem aí. Por exemplo - já foste lavar os dentes? Não! É esse mesmo!
 
Descobri outro não mais recentemente. É um não que tem várias partes. Aprendi esse não numa situação que passo a descrever. Foi assim. Um adulto disse a uma criança - não! Aquele não curto, imperativo, parecido com a bica que mal molha o fundo da chávena. Mas a criança continuou a insistir e o adulto disse então à criança - que parte do não tu não percebeste? Eu não quiz entrar na conversa, mas apeteceu-me perguntar ao adulto que parte era essa. Mas deixei. A conversa não era comigo. No entanto ficou muito claro para mim que há um não que tem várias partes. Uma das quais a criança não percebeu. E eu, confesso, também não.
  
Deve haver mais nãos. Eu é que tenho de puxar pelos meus dois neurónios para pensar noutros. E já agora vou investigar essa do não com várias partes.
  
Dá para entender, não? Os anglo-saxónicos dizem - you understand, right?  No país do não diz-se - percebeste, não?


Friday, June 8, 2012

O país do “não”


Há um país, não muito longínquo, cujo nome, traduzido para portugês, é “o país do não”. Nome estranho este, não é? Mas é assim. O país do “não”.
  
É um país, na realidade, onde todas as afirmações são respondidas com um “não” enfático. Depois disso seguem-se respostas mais ou menos relacionadas com as afirmações iniciais mas sempre com um “não” em cada frase. Daí o nome do país. Na realidade eu chamar-lhe-ia “o país dos surdos” porque pareceu-me que as pessoas nem ouviam a afirmação inicial. Apenas se concentram no ripostar negativo.
 
Muito estranho este hábito. Mas, realmente, não admira que o país tenha adquirido aquele nome, “o país do não”. Não se sabe bem se foram os nativos que escolheram o nome ou se lhe foi dado por algum invasor de outros tempos. O que é certo é que o nome aplica-se bem.
 
Para compreender bem esta curiosidade preciso de dar uns exemplos.
  
Uma pessoa diria, por exemplo, que o carro do vizinho estava lavadinho e todo brilhante. A primeira resposta poderia ser – ah, mas aquilo “não” é novo! Aquilo ele comprou numa sucata qualquer e depois mandou pintar. Está bem, responderia eu, mas eu não disse que era novo. Eu disse apenas que estava lavado e brilhante. Tarde teria eu piado. A conversa já teria desmoronado e não haveria saída para a conversa do “não é novo”. Diram também que fui eu que dei a entender que... e embora eu pudesse repetir o que disse ou tivesse deixado de dizer, o que é certo é que já não haveria retorno para uma discussão sobre o que eu disse ou não disse e como disse. Mas nada a ver com o carro estar lavadinho. Este conceito já se teria perdido pelo caminho.

Não sei se os tempos dos verbos desta frase estão todos como deve ser, mas espero que dê para entender o exemplo.

Vou dar outro exemplo. Passou-se num café onde afirmei, por graça, que agora com o calor e com as chuvas tardias tinhamos de ter muito cuidado com os plasmódios voadores da malária porque estes poderiam entrar-nos pelos ouvidos e lá vamos nós de cama com umas febres que não têm graça nenhuma. Ouvi imediatamente que “não”, os plasmódios não voam, muito menos os da malária, e que, quando muito, entrariam pelo nariz, mas nunca pelos ouvidos. Fiquei esclarecido. Levei com uma retórica elaborada sobre o ciclo de vida do plasmódio da malária, bem como com umas acusações de ignorância que ainda hoje me ressoam nos ouvidos, por onde, fiquei a saber, não entram os plasmódios, felizmente. Não consegui convencer os meus acompanhantes que o que eu tinha dito o tinha feito apenas por graça porque, disseram-me, o tom com que eu tinha dito "não" tinha nada de gracejo e portanto eu fiz uma afirmação que "não" estava correta.
  
Foi aí que comecei a pensar que talvez o país se devesse chamar “o país dos surdos”. Porque aquele intercâmbio de palavras mais me pareceu uma conversa de surdos do que outra coisa.

Mas depois de pensar bem concordei que realmente o “não” superou todas as outras possíveis alternativas. Pelo menos estatisticamente falando.

Ficou bem claro para mim que para além de eu “não” ter dito nada acertado, o que era certo era que o plasmódio “não” voa, o plasmódio “não” entra pelos ouvidos, quando muito pelo nariz, mas nunca pelos ouvidos, que “não” o disse em tom jocoso, e que “não” valia a pena eu tentar esclarecer porque já “não” havia a possibilidade para tal. O dano estava causado e “não” me deixariam explicar. Também notei que quase “não” tive oportunidade para falar porque todos começaram a falar ao mesmo tempo sem se aperceberem do que cada um estava a dizer. Mas isso é outra estória.

Este país também anda mal de finanças mas “não” há solução, disseram-me. Mas também me garantiram que “não” vai à falência porque isso também “não” é uma opção. 

Este país também está no Euro 2012. Dizem que "não" tem hipótese... porque "não" tem a sorte ao seu lado, o seu triste fado é de "não" ter fado...

Mas... desculpem... divago um pouco...